Connect entrevista Luiz Carlos Dutra, presidente executivo da ABIHPEC

Foto: Divulgação in-cosmetics Latin America

Após ultrapassar US$ 1 bilhão em exportações de HPPC, mercado nacional reforça tendência de soluções integradas

Movimento é recorde desde o início da série histórica de análise da balança comercial do setor de beleza e cuidados pessoais, iniciada em 1997; neste ano, o autocuidado integrado ganha força no setor


O setor de beleza e cuidados pessoais nacional bateu recorde de exportação em 2025 e superou a marca de US$ 1 bi, com produtos chegando a cerca de 200 países. O desempenho foi 20% superior ao registrado no ano anterior, segundo publicação da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), de janeiro deste ano.

A informação reforça o bom momento do mercado, reflexo do crescimento gradual que vem sendo apresentado nos últimos cinco anos e pode também ser conferido nas edições da in-cosmetics Latin America — diante da movimentação de público qualificado e da participação de novos expositores para apresentação de novidades. Somente na edição passada, houve aumento de público em 7,7% (6.606 visitantes únicos) em relação a 2024, composto por profissionais de 23 diferentes países.

Além do desempenho positivo, os primeiros meses de 2026 têm chamado a atenção para um movimento da indústria: o autocuidado integrado que alia dimensões físicas, emocionais e sociais.

Para entender mais sobre o atual cenário de beleza e cuidados pessoais na região, o Connect entrevistou Luiz Carlos Dutra, presidente-executivo da ABIHPEC. O gestor faz uma análise de tendências, comportamento de consumo, inovação e os rumos da indústria. Confira:

1. Quais tendências têm marcado o mercado de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos neste início de 2026?

Luiz Carlos Dutra - O setor brasileiro de Beleza e Cuidados Pessoais é hoje o 3º maior do mundo e representa cerca de 2% do PIB nacional, reforçando a sua relevância para a economia e para a sociedade. Neste início de 2026, esse mercado vem sendo marcado por tendências que refletem uma evolução para soluções mais integradas, tecnológicas e orientadas ao bem-estar do consumidor.

Um dos destaques é o avanço do conceito de longevidade aplicada à beleza, com foco na manutenção da saúde da pele e dos cabelos ao longo do tempo. Esse movimento tem ganhado relevância na agenda da indústria.

Também se destacam a integração entre ciência e natureza, com o avanço de ingredientes biotecnológicos e biomiméticos, o desenvolvimento de produtos multifuncionais e a busca por formulações mais personalizadas, além da valorização da experiência sensorial. Esses movimentos foram identificados em análises de mercado e conteúdos técnicos apresentados em eventos especializados da indústria, acompanhados pela ABIHPEC.

2. O que mudou no comportamento do consumidor brasileiro em relação ao consumo de produtos de beleza e autocuidado nos últimos 3 meses? 

Luiz Carlos Dutra - O consumidor de beleza está cada vez mais informado, seletivo e orientado por valor real. Isso significa que ele exige produtos com eficácia comprovada, mas também alinhados a aspectos como sustentabilidade, transparência e propósito. Ao mesmo tempo, vemos uma demanda crescente por soluções mais personalizadas, que considerem as particularidades de cada indivíduo, seja em relação ao tipo de pele, cabelo, estilo de vida ou até às necessidades emocionais.

Mas existe um ponto que ganha cada vez mais força no Brasil: a ideia de que o autocuidado é um meio para que as pessoas possam fazer acontecer algo positivo nas suas vidas. Isso está diretamente conectado ao conceito de cuidado integral - físico, mental e social -, que orienta o novo posicionamento do setor.

O slogan “Cuidar para fazer acontecer”, da recente campanha de reposicionamento do setor, traduz exatamente esse movimento: o brasileiro entende que, ao cuidar de si de forma completa, ele se prepara melhor para seus desafios, para o trabalho, para as relações e para seus projetos de vida. Ou seja, o consumidor de agora não busca apenas produtos, mas soluções que contribuam de forma concreta para seu bem-estar e para sua capacidade de realização no dia a dia.

3. Quais categorias ou tipos de produtos têm apresentado maior crescimento neste começo de ano? Há alguma surpresa nesse movimento?

Luiz Carlos Dutra - Neste início de ano, observa-se uma dinâmica de mercado marcada pela força de categorias já consolidadas e pela capacidade de adaptação do setor às mudanças de comportamento do consumidor. Dentro do segmento de higiene pessoal, seguem com desempenho consistente sabonetes, produtos de higiene bucal e itens voltados à rotina básica de cuidados, refletindo sua presença essencial no dia a dia.

Perfumes e colônias também se destacam como uma das frentes mais dinâmicas, impulsionadas pela busca por experiências sensoriais e por produtos que agreguem valor à rotina. Já em cosméticos, ganham destaque os itens voltados aos cuidados com os cabelos, especialmente produtos fixadores e modeladores, com foco em soluções mais específicas e alinhadas às necessidades do consumidor.

O que se percebe é um movimento de requalificação do consumo, no qual diferentes categorias encontram espaço de crescimento a partir da inovação e da conexão com as novas demandas do consumidor.

4. Como tendências como bem-estar, autocuidado e sustentabilidade estão influenciando o desenvolvimento de novos produtos na indústria?

Luiz Carlos Dutra - Tendências como bem-estar, autocuidado e sustentabilidade têm influenciado de forma direta o desenvolvimento de novos produtos na indústria de Beleza e Cuidados Pessoais, orientando não apenas o portfólio, mas também a forma como as empresas inovam e se posicionam no mercado.

No caso do autocuidado, observa-se uma ampliação do seu significado, que passa a incorporar benefícios que vão além da estética. Esse movimento se conecta ao conceito de cuidado integral - físico, mental e social -, que vem sendo adotado pelo setor como um direcionador estratégico, impulsionando o desenvolvimento de produtos que entreguem funcionalidade, sensorialidade e experiências alinhadas ao bem-estar do consumidor.

A agenda de sustentabilidade também ganha centralidade nesse processo, com avanços em formulações, uso responsável de recursos naturais, embalagens e cadeias produtivas mais eficientes. Trata-se de um movimento estruturante, que vem sendo incorporado de forma progressiva pelas empresas, alinhado às melhores práticas globais e às expectativas do mercado.

Essas tendências, combinadas, contribuem para um ambiente de inovação contínua, no qual o desenvolvimento de produtos passa a considerar, de forma integrada, desempenho, segurança, impacto e relevância para o consumidor.

5. Quais inovações ou tecnologias devem ganhar destaque no setor nos próximos meses?

Luiz Carlos Dutra - Observa-se que o setor de Beleza e Cuidados Pessoais vem evoluindo em inovações cada vez mais orientadas por ciência avançada e novas abordagens de desenvolvimento de produtos. Tendências apresentadas pelo instituto de pesquisa Beautystreams apontam para alguns movimentos-chave nesse sentido.

Entre eles, ganha força o uso de biotecnologia aplicada a ingredientes, com ativos mais eficientes e sustentáveis, além de soluções inspiradas em mecanismos biológicos para potencializar resultados. Também se observa o avanço de tecnologias voltadas à manutenção da saúde da pele e dos cabelos ao longo do tempo, com foco em prevenção e performance contínua.

Outro destaque é a evolução de sistemas de formulação e entrega de ativos, que aumentam a eficácia dos produtos, bem como o desenvolvimento de soluções mais customizadas, capazes de atender às diferentes necessidades dos consumidores.

Esse ambiente de inovação também vem sendo acompanhado por avanços no campo regulatório, como a implementação do sandbox regulatório para cosméticos personalizados, iniciativa construída por meio do diálogo entre a ABIHPEC e a Anvisa, que permite testar novos modelos de negócio e tecnologias em um ambiente controlado, com maior agilidade e segurança. Esses movimentos reforçam um cenário em que a inovação está cada vez mais conectada à performance, segurança e sofisticação técnica, acompanhando a evolução das expectativas do mercado.

6. O Brasil continua sendo um mercado relevante para lançar tendências em beleza e cosméticos na América Latina? Que movimentos reforçam isso?

Luiz Carlos Dutra - O Brasil se consolida como um dos principais mercados de referência em Beleza e Cuidados Pessoais no mundo. Além de, atualmente, ser o 3º maior mercado consumidor global, atrás apenas de Estados Unidos e China, o país responde por cerca de 43,4% do consumo da América Latina, o que reforça seu papel central também na dinâmica regional.

Um dos indicadores mais relevantes desse protagonismo é a capacidade de inovação. O Brasil ocupa a 4ª posição no ranking global de países que mais lançam produtos de Beleza e Cuidados Pessoais, refletindo um ambiente competitivo, dinâmico e com forte ritmo de desenvolvimento de novas soluções.

Os resultados no comércio exterior também reforçam essa relevância. Em 2025, o setor registrou o melhor desempenho de toda a série histórica iniciada em 1997, ultrapassando US$ 1,061 bilhão em exportações, com produtos brasileiros chegando a quase 200 países.

Esse desempenho é sustentado por um ambiente regulatório consolidado. A cooperação entre a indústria e a Anvisa contribui para o alinhamento às melhores práticas internacionais, garantindo que os produtos atendam a elevados padrões de segurança, qualidade e eficácia, ao mesmo tempo em que promove previsibilidade e estimula a inovação.

Além disso, o setor vem passando por um movimento estruturado de reposicionamento, liderado pela ABIHPEC, que reconhece o papel da indústria na promoção do cuidado integral dos brasileiros, abrangendo as dimensões física, mental e social. Para empresas e fornecedores de ingredientes, como os presentes na in-cosmetics, compreender essa evolução é estratégico para acompanhar as transformações do mercado brasileiro, que, historicamente, exerce forte influência sobre o desenvolvimento da indústria na América Latina.

7. Na avaliação da ABIHPEC, quais impactos a próxima edição da in-cosmetics Latin America pode gerar para a indústria da região, especialmente em termos de inovação, novos negócios e lançamento de tendências?

Luiz Carlos Dutra - A in-cosmetics Latin America é uma das principais plataformas de conexão da cadeia de Beleza e Cuidados Pessoais na região e exerce um papel estratégico para o fortalecimento da indústria, especialmente em agendas relacionadas à inovação, novos negócios e antecipação de tendências.

Na avaliação da ABIHPEC, o evento contribui diretamente para a difusão de conhecimento técnico e tecnológico, ao reunir fornecedores de ingredientes, especialistas e empresas em um ambiente propício à troca de experiências e ao acesso às principais inovações globais do setor. Esse intercâmbio é fundamental para acelerar o desenvolvimento de novos produtos e soluções mais competitivas.

A parceria contínua entre a ABIHPEC e a in-cosmetics Latin America tem ampliado esse impacto ao longo dos anos, com a realização de iniciativas voltadas ao desenvolvimento do setor, como conteúdos técnicos, painéis estratégicos e ações de conexão entre empresas. Essas atividades fortalecem o ambiente de negócios e estimulam a geração de oportunidades ao longo de toda a cadeia produtiva.

Nesse contexto, o evento também dialoga com transformações estruturais do setor, como o avanço do conceito de cuidado integral - físico, mental e social, além das agendas de inovação e sustentabilidade, reforçando seu papel como catalisador do desenvolvimento da indústria de Beleza e Cuidados Pessoais na América Latina.

Conforme destaca a entrevista, todos esses movimentos poderão ser conferidos na in-cosmetics Latin America 2026. O evento acontecerá nos dias 23 e 24 de setembro, no Expo Center Norte, em São Paulo. Continue acompanhando as novidades de mercado e do evento nas matérias, entrevistas e podcasts que serão publicados ao longo do ano aqui no Connect.



Looking for something else?