Biotecnologia e fermentação: desafios e vantagens atuais para a indústria de cosméticos

Em entrevista, o especialista da in-cosmetics Latin America Emiro Khury analisa a importância do movimento para as cadeias de inovação e sustentabilidade 

Imagem meramente ilustrativa. Crédito: Unsplash

Na esteira do crescimento do mercado de cosméticos naturais, a biotecnologia e o uso de técnicas, como a de fermentação, em etapas de pesquisa e desenvolvimento de produtos de beleza e cuidados pessoais, tem ganhado cada vez mais espaço não apenas nos laboratórios, como também nos debates setoriais.

Visto atualmente como plataformas de inovação, este movimento deve seguir em alta nos próximos anos, considerando o que apontam os termômetros e previsões de mercado. Segundo o levantamento Natural Cosmetics Market 2024-2030, da Grandview Research, por exemplo, o tamanho do mercado global do segmento foi avaliado em US$ 31,8 bilhões, em 2023, tem projeção de alcançar US$ 37,0 bilhões neste ano, e US$ 45,6 bilhões até 2030. 

Entre os principais motivos que impulsionam a evolução estão a confiança nos produtos naturais e o aumento do investimento em itens saudáveis por parte dos consumidores.

Para Emiro Khury, diretor técnico da EK Consulting e especialista de mercado da in-cosmetics Latin America 2026, “a biotecnologia na indústria nacional e global de beleza está em um momento de transição, deixou de ser um tema restrito à pesquisa acadêmica ou a nichos muito técnicos e passou a entrar na estratégia de inovação, sustentabilidade e diferenciação de algumas marcas”. 

Neste sentido, o processo de “fermentação começou a deixar de ser visto apenas como uma técnica tradicional quando passou a ser integrado à biotecnologia industrial, especialmente, a partir do momento em que os microrganismos, antes usados apenas para “transformar” matérias-primas, passaram a ser programados, selecionados ou otimizados para produzir moléculas específicas com alto valor agregado”, explica Khury. 

Em entrevista ao Connect, o especialista fez uma análise do tema, de seu potencial de mercado e para a sustentabilidade, bem como projeções para os próximos anos. 

Confira trechos da conversa abaixo:

in-cosmetics Connect – Considerando o desenvolvimento de novas soluções e o avanço da biologia sintética, quais descobertas recentes têm sido possíveis com o processo de fermentação? Além disso, quais fatores contribuem para a aplicação em grande escala na indústria?

Emiro Khury – É importante chamar a atenção nesse processo para os avanços em biologia molecular, engenharia metabólica e biologia sintética. Eles que permitiram inaugurar novas rotas fermentativas para produzir enzimas, peptídeos, biossurfactantes, polissacarídeos e fragrâncias de forma mais sustentável.

A fermentação também pode reduzir a dependência de ingredientes petroquímicos, matérias-primas caras ou sistemas agrícolas vulneráveis, o que contribui para a sustentabilidade e a rastreabilidade dos processos produtivos.

A escala industrial se tornou mais eficiente com biorreatores, produtos mais concentrados e controle de qualidade capazes de entregar ingredientes seguros e economicamente viáveis.

in-cosmetics Connect - Quais são as principais rotas de fermentação utilizadas pelas indústrias da região (América Latina)? E quais ativos ou ingredientes têm sido produzidos a partir do processo?

Emiro Khury - Vou tentar responder a esta pergunta, mas acho que não será uma resposta completa, pois estes projetos não são divulgados antes de se tornarem produtos. 

Na América Latina, as rotas de fermentação mais utilizadas para ingredientes cosméticos têm forte relação com a disponibilidade de biomassa, açúcares, óleos vegetais e resíduos agroindustriais. Esses processos permitem transformar matérias-primas renováveis em ativos de maior valor agregado, como ácido lático, biossurfactantes, polissacarídeos, peptídeos e lipídios funcionais.

in-cosmetics Connect - De que forma a biotecnologia pode contribuir para cadeias produtivas mais resilientes? E quais têm sido os desafios de escalar processos biotecnológicos mantendo a eficácia, a viabilidade econômica e a sustentabilidade?

Emiro Khury - A biotecnologia reduz a dependência de matérias-primas sujeitas à sazonalidade, variações climáticas e disponibilidade de terra fértil para o cultivo. Considere os eventos climáticos extremos que estão se tornando mais comuns e a escassez de áreas férteis. Ao utilizar microrganismos, enzimas ou processos fermentativos, a indústria consegue produzir ingredientes em ambientes mais controlados, como biorreatores, com maior previsibilidade de qualidade e rendimento.

in-cosmetics Connect - Em se tratando de regulação, quais são os principais obstáculos para ingredientes obtidos por meio da biotecnologia? 

Emiro Khury - Os desafios regulatórios são os mesmos, tanto para biotecnológicos como para ingredientes obtidos de outras formas. Um desafio que não se encaixa na área regulatória, mas como um apelo de marketing seria o uso errado ou exagerado de termos, como: natural, bio-based, pós-bióticos, sustentável ou clean. 

Outro também não incluído, necessariamente, na esfera regulatória seria o fato de que ingredientes produzidos por fermentação de precisão ou microrganismos geneticamente modificados podem exigir explicações adicionais sobre o processo, ainda que o ingrediente final não contenha o microrganismo.

in-cosmetics Connect - Considerando os rumos da indústria, é possível prever se a biotecnologia conseguirá reduzir a pressão sobre recursos naturais e ingredientes de origem convencional?

Emiro Khury - Ela tende a ser mais transformadora em categorias nas quais há alta pressão ambiental, dependência de matérias-primas escassas, grande variação de qualidade ou risco de abastecimento. 

Com o tempo, à medida que os eventos ambientais extremos se tornarem mais frequentes e a pressão sobre a produção de alimentos mais urgente, sua utilização será mais intensa. 

Possivelmente, o impacto será maior nos ingredientes em que a biotecnologia conseguir entregar desempenho, custo competitivo, segurança de abastecimento e ganho ambiental comprovado.

in-cosmetics Connect - Na sua opinião, como será a indústria cosmética em 2035 considerando os avanços de biotecnologia e fermentação?  E quais competências profissionais tendem a ganhar relevância para quem já atua ou pretende trabalhar na área?

Emiro Khury - Em 2035, a indústria cosmética deverá ser mais biotecnológica, rastreável e orientada por evidências. A fermentação não substituirá todas as rotas convencionais, mas será uma plataforma cada vez mais relevante para produzir ingredientes de alto valor agregado. 

Para os profissionais, ganharão importância competências em biotecnologia aplicada, microbiologia, formulação com ingredientes inovadores, sustentabilidade baseada em dados, regulação, comunicação técnica e integração entre ciência, mercado e cadeia produtiva.

Desafios do setor

Além da análise acima, o especialista também destaca que, como toda iniciativa relacionada à tecnologia e a processos, biotecnologia e fermentação também trazem alguns desafios. O primeiro é que, apesar do avanço no mercado, a escalabilidade ainda é ponto a ser solucionada, já que o desenvolvimento de um ingrediente em laboratório é muito diferente da produção em volumes industriais. 

O segundo envolve a viabilidade econômica, principalmente, “quando os ingredientes biotecnológicos competem com alternativas convencionais já consolidadas e com valores mais acessíveis”, finaliza Khury.

Encontro de mercado

O debate sobre o tema e o panorama atual de matérias-primas envolvendo processos de biotecnologia e fermentação, bem como outros destaques setoriais, poderão ser conferidos na in-cosmetics Latin America 2026. 

O evento será nos dias 23 e 24 de setembro, no Expo Center Norte, em São Paulo. O credenciamento já está aberto em pode ser feito aqui.


Anote na agenda: a in-cosmetics Latin America 2026 será nos dias 23 e 24 de setembro, no Expo Center Norte, em São Paulo. O credenciamento estará aberto a partir de junho. Informações em https://www.in-cosmetics.com/latin-america/pt-br.html.



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