“Futuro da perfumaria começa quando criatividade, sensorialidade, tecnologia e sustentabilidade deixarem de existir separadamente”, diz especialista
Imagem meramente ilustrativa. Crédito: Unsplash
Em 2025, as vendas no varejo nacional de fragrâncias registraram R$ 50,5 bilhões, segundo o relatório Fragrances in Brazil, publicado pela Euromonitor International, no primeiro semestre deste ano.
O resultado representa um salto de 10% em comparação com o ano anterior, e supera o crescimento do geral do setor de beleza e cuidados pessoais. Segundo a empresa global de pesquisa, e conforme divulgado no relatório Tamanho do mercado de beleza e cuidados pessoais no Brasil, da ABIHPEC, atualizado em agosto deste ano, o Brasil ocupa o 2º lugar no ranking global de fragrâncias, desodorantes e produtos masculinos.
E o que esses resultados significam para a indústria nacional? Como todo esse cenário reflete no trabalho criativo de perfumistas? Quais são os desafios para encantar clientes?
Para responder estas e outras perguntas o in-cosmetics Connect entrevistou o perfumista técnico criativo Rafael Pataca e o diretor comercial Latam Everton Rodrigues, ambos da Oak Fragrances.
Confira a conversa abaixo:
1. O mercado nacional de perfumaria vem apresentando crescimento. Somente no ano passado, de acordo com informações da Euromonitor e da ABIHPEC, o avanço foi de 10%. Além disso, o segmento registrou R$ 50,5 bilhões no varejo nacional. Como esse movimento se reflete no trabalho dos perfumistas e das empresas que atuam no desenvolvimento de fragrâncias?
Rafael Pataca - Existe um paradoxo interessante nesse crescimento: quanto maior o mercado, mais difícil fica surpreender o(a) consumidor(a). Hoje, temos acesso quase que instantâneo ao que está sendo lançado no mundo. O público experimenta mais, compara, pesquisa e começa a reconhecer famílias olfativas, ingredientes e diferentes níveis de performance. Isso eleva a expectativa e, consequentemente, aumenta o desafio criativo.
Para perfumistas, já não basta desenvolver uma fragrância tecnicamente correta e agradável, ela precisa de uma narrativa e exalar identidade. Esse é o desafio que mais me motiva. Por trás de uma fragrância existem dezenas, às vezes, centenas de decisões invisíveis: escolha e equilíbrio das matérias-primas, volatilidade, substantividade, performance, estabilidade, compatibilidade com a base, segurança regulatória e custos.
Mas existe algo curioso, quando o(a) consumidor(a) avalia a fragrância, o perfume, toda essa complexidade técnica precisa desaparecer. ele não precisa perceber a fórmula, e sim se encantar. É justamente nesse ponto que, para mim, a ciência encontra a criação.
2. E de que forma esse crescimento também tem impulsionado o interesse de marcas considerando a visitação aos estandes da Oak Fragrances em eventos do setor?
Everton Rodrigues - Os próprios números apresentados para o mercado ajudam a dimensionar esse movimento. Nos eventos, percebemos esse crescimento também qualitativamente. As conversas estão mais estratégicas e as marcas chegam interessadas não apenas em conhecer fragrâncias, mas também em compreender tendências, comportamento de consumo, inovação, experiências e possibilidades de diferenciação. Isso mudou também o papel dos estandes e da forma de expor lançamentos nas feiras do setor.
Buscamos sempre criar espaços de conteúdos, experiências e relacionamento, nos quais a fragrância é apresentada dentro de uma temática de mercado e de comportamento. Sendo assim, os eventos acabam funcionando como um importante termômetro, já que permitem observar quais conceitos despertam maior interesse, quais tendências começam a ganhar força e quais movimentos podem se transformar em oportunidades para os nossos clientes.
Everton Rodrigues, diretor comercial Latam da Oak Fragrances. Crédito: divulgação Oak
3. Apesar desse movimento, o segmento ainda carece de perfumistas no Brasil. Por que isso acontece? Como mudar esse cenário?
Rafael Pataca – Isso ocorre porque talvez exista uma coisa que ainda não conseguimos acelerar: o processo de formação precisa de tempo, treinamento e dedicação. Podemos acelerar análises, acessar informações em segundos e utilizar tecnologias cada vez mais sofisticadas, mas a memória olfativa não se instala como um software.
Um perfumista passa anos conhecendo matérias-primas e treinando o cérebro para reconhecer nuances, contrastes e interações. E não basta saber que determinado ingrediente é floral, amadeirado ou cítrico. Precisamos conhecer sua origem, volatilidade, comportamento, e principalmente, visualizar o que ele pode se tornar quando combinado com outros materiais. A química de tudo isso, é vasta, e interage com a sinestesia, o verdadeiro equilíbrio “químico-emocional”.
No Brasil, ainda temos poucos caminhos formais para essa formação. Historicamente, grande parte desse conhecimento foi transmitida dentro das próprias casas de fragrâncias, de perfumistas para perfumistas, e de perfumistas para aspirantes.
Acredito que precisamos aproximar mais a indústria das universidades e estimular a formação em química, matérias-primas, análise, avaliação sensorial e técnica criativa.
Hoje, na Oak, uma empresa perto de completar uma década, há perfumistas como o Alfredo Monteiro (Perfumista Sênior) com quase 5 décadas de atuação, e eu Rafael Pataca (Perfumista Técnico Criativo), rumo a 3 décadas, e só agora iniciamos a formação do Henrique Pereira (Perfumista Junior) para se tornar um perfumista da casa. E é importante mencionar que existe uma provocação importante: somos um dos países mais biodiversos do planeta, mas ainda precisamos formar mais pessoas capazes de transformar toda essa riqueza em linguagem olfativa.
4. Falando em exportação, tem havido maior interesse de outros países em fragrâncias e ativos nacionais? Caso sim, por que isso tem acontecido?
Everton Rodrigues – Sim, e aqui na empresa percebemos que esse movimento já pode ser observado de forma concreta. Atualmente, atendemos clientes em outros países da América Latina e também na Australia, o que demonstra que há espaço para criação e o desenvolvimento brasileiro de fragrâncias além do nosso mercado interno.
Existe, internacionalmente, uma valorização crescente de conceitos relacionados à origem, autenticidade, biodiversidade e sustentabilidade e o Brasil reúne atributos muito competitivos nesse cenário.
Mas acredito que exista uma mudança importante de percepção, onde o interesse não está apenas relacionado à matéria-prima nacional, mas no conhecimento, na criatividade e no desenvolvimento de fragrâncias genuinamente brasileiras.
Nossa diversidade cultural oferece por si só um repertório muito particular para criações. Quando somado à tecnologia, qualidade, capacidade criativa e o entendimento dos diferentes mercados, passamos de fornecedores para parceiros de inovação. Nossa presença em outros países, reforça justamente esse movimento, onde as fragrâncias brasileiras também atravessam as fronteiras internacionais.
5. Temos visto também que as perfumarias oriental e árabe têm apresentado desempenho positivo no país. A Oak Fragrances, por exemplo, já trouxe a conexão com Oriente com um dos seus conceitos na in-cosmetics Latin America 2023. O que isso significa para pesquisadores e desenvolvedores de fragrâncias? Atualmente, tais referências também influenciam a criatividade e inspiram novas formulações no mercado nacional?
Rafael Pataca – A perfumaria árabe provocou algo muito interessante no mercado brasileiro: ela devolveu ao perfume a permissão de ocupar espaço e o consumidor passou a explorar com mais intensidade construções envolvendo oud, açafrão, âmbar, resinas, especiarias, rosas opulentas, musks, madeiras e acordes gourmand.
São fragrâncias que, muitas vezes, não querem passar despercebidas. Para mim, como perfumista, a parte mais interessante não é reproduzir literalmente uma fragrância do Oriente.
Já sobre a pergunta criativa, acredito que o caminho é outro: o que acontece quando esses códigos olfativos encontram o Brasil? O que acontece quando a densidade de um acorde de oud encontra a luminosidade de uma fruta tropical? Quando especiarias e resinas encontram transparência? Quando uma rosa opulenta é reconstruída sob uma perspectiva brasileira?
A própria Oak já trouxe essa conexão com o Oriente em um de seus conceitos, onde as tendências hoje são globais. Mas acredito que o trabalho mais interessante do perfumista não seja copiá-las, e sim entendê-las, desconstruí-las e reinterpretá-las até que adquiram uma nova identidade.
6. Considerando o atual cenário, como a IA e também a sustentabilidade estão transformando a perfumaria? Assim como no desenvolvimento de cosméticos, a tecnologia também tem acelerado os processos de pesquisa, produção e lançamento?
Rafael Pataca – Quando falamos de inteligência artificial na perfumaria, inevitavelmente surge uma pergunta: uma IA pode criar um perfume? Ela pode analisar uma quantidade extraordinária de informações, encontrar correlações, identificar padrões e acelerar determinadas etapas de pesquisa e desenvolvimento, e isso é extremamente poderoso.
Porém, eu gosto de fazer outro questionamento: uma inteligência artificial consegue sentir saudade? Porque fragrância não é apenas uma combinação matemática eficiente de moléculas.
Um cheiro pode nos transportar para um lugar onde não estamos há vinte anos. Pode lembrar uma pessoa, uma viagem ou uma situação que aparentemente havíamos esquecido. Essa dimensão emocional continua sendo profundamente humana.
Por isso, não vejo a IA substituindo o perfumista. Vejo ela ampliando nossas ferramentas. Ela pode sugerir caminhos que talvez demorássemos muito mais para encontrar. Mas alguém ainda precisa decidir qual caminho merece ser seguido e quando é justamente o momento de romper o padrão.
A sustentabilidade acrescenta outra dimensão técnica à criação. Hoje não podemos perguntar apenas “como isso cheira?”. Precisamos considerar origem, rastreabilidade, processos produtivos, impacto ambiental e novas possibilidades trazidas pela química e pela biotecnologia.
Talvez o futuro esteja justamente na combinação de três inteligências: artificial, científica e sensorial.
Rafael Pataca, perfumista técnico criativo da Oak Fragrances. Crédito: Renan Santos
7. Diante do atual cenário de inovação, quais são as etapas de criação de uma fragrância até sua comercialização? O que mudou nesse processo?
Rafael Pataca – Curiosamente, uma fragrância muitas vezes começa sem ter cheiro. Ela pode ter início com uma palavra, uma fotografia, uma cor, uma música, uma viagem, uma lembrança; ou com algumas linhas escritas em um briefing. O primeiro desafio do perfumista é transformar algo abstrato em uma direção olfativa.
Depois começa a arquitetura da fragrância. Selecionamos matérias-primas, construímos acordes, trabalhamos proporções e criamos diferentes versões. Algumas mudanças podem parecer mínimas numericamente e, ainda assim, alterar completamente a percepção da criação.
Mas, existe uma parte desse processo que o consumidor raramente imagina - uma fragrância não termina quando o perfumista gosta dela. Ela precisa sobreviver ao mundo real. Depois vêm as etapas de aprovação, industrialização e comercialização.
A tecnologia acelerou e conectou muito esse processo. Criação, avaliação, aplicação, laboratório, regulatório, marketing, comercial e cliente, trabalham hoje de maneira cada vez mais integrada.
Mas o coração criativo permanece quase poético, onde começamos tentando descobrir qual seria o cheiro de uma ideia e terminamos tentando descobrir se esse cheiro será capaz de se transformar em memória.
8. Cerca de 15% da biodiversidade mundial está concentrada no país. Essa diversidade pode colocar o Brasil no ranking global de maiores fabricantes de perfumes? O que falta para isso acontecer, na sua opinião?
Rafael Pataca – Existe uma provocação que considero importante, ter uma das maiores biodiversidades do planeta não significa, automaticamente, conseguir transformá-la em inovação.
O Brasil possui um universo extraordinário de plantas, frutos, madeiras, sementes e referências olfativas ainda pouco exploradas pela perfumaria. Mas, entre descobrir uma matéria-prima interessante e transformá-la em um ingrediente viável para utilização, existe um caminho técnico, científico, produtivo e regulatório bastante complexo. E aqui encontramos um dos nossos desafios, o entendimento e a operacionalização das exigências relacionadas ao SisGen (Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado) e ao acesso ao patrimônio genético brasileiro.
É absolutamente necessário proteger nossa biodiversidade, garantir rastreabilidade, reconhecer e só repartir benefícios quando aplicável. Ao mesmo tempo, para quem pesquisa e desenvolve inovação, compreender corretamente todos os enquadramentos, responsabilidades e procedimentos pode ser desafiador.
Para uma casa de fragrâncias, isso ganha ainda mais complexidade porque trabalhamos justamente na fronteira entre natureza, química, pesquisa e criação.
Por isso, não basta termos biodiversidade, precisamos transformá-la em pesquisa, conhecimento científico, ingredientes padronizados, cadeias sustentáveis, segurança regulatória, tecnologia e propriedade intelectual. E, vale destacar, que existe uma diferença enorme entre exportar uma matéria-prima nacional e exportar uma ideia brasileira construída a partir dela.
Durante décadas aprendemos olhando para grandes centros internacionais da perfumaria e essa troca continuará sendo fundamental. Mas, talvez esteja na hora de inverter também essa direção. Considerando isso, o que precisamos fazer para que o mundo olhe para o Brasil não apenas para encontrar matérias-primas, como também para descobrir o próximo ingrediente, a próxima tecnologia ou o próximo capítulo da perfumaria?
Nossa biodiversidade já existe. O grande desafio é criar caminhos seguros e viáveis para transformá-la em conhecimento, inovação e perfumaria brasileira para o mundo.
9. Considerando a diversidade de regiões e da população, há uma identidade olfativa nacional ou muitos Brasis olfativos?
Rafael Pataca – Se alguém me perguntar qual é o cheiro do Brasil, minha primeira resposta provavelmente será outra pergunta: qual Brasil?
O cheiro de uma floresta depois da chuva não é o mesmo de uma plantação de café. O cerrado não tem o mesmo aroma do litoral.
Temos terra molhada, folhas, madeiras, café, cacau, frutas, flores, maresia e inúmeras outras referências. Mas, existem também os cheiros das nossas casas, das cidades, da gastronomia, das festas e da infância. Por isso, eu não acredito que exista uma única identidade olfativa brasileira. Existem muitos “Brasis” olfativos e talvez essa seja justamente nossa maior riqueza criativa.
Não precisamos escolher uma única matéria-prima para representar o país. Nossa identidade pode estar na mistura, nos contrastes e na capacidade de transformar referências aparentemente distantes em algo novo, porque perfume não fala apenas sobre lugares, fala sobre memória. E um país com tantas histórias dificilmente poderia ter um único cheiro.
10. Para encerrar, o futuro da perfumaria no Brasil e nos demais países da América Latina tende a ser mais criativo e sensorial, tecnológico, sustentável ou uma junção desses fatores? Por que?
Rafael Pataca – O futuro começa justamente quando eles deixam de existir separadamente. Teremos inteligência artificial, biotecnologia, novas moléculas, novos processos e ferramentas de análise cada vez mais sofisticadas.
Ao mesmo tempo, precisaremos criar com mais responsabilidade, compreendendo a origem e o impacto daquilo que utilizamos. E existe um paradoxo que considero fascinante, quanto mais digital se torna o mundo, maior parece ser nossa necessidade de sentir algo real. É justamente aí que o olfato se torna extraordinariamente contemporâneo. Vivemos cercados por imagens que desaparecem em segundos nas telas. Um cheiro, porém, pode permanecer guardado na memória durante décadas, e a América Latina, por exemplo, tem biodiversidade, cultura, histórias, criatividade e uma relação muito particular com fragrâncias.
Se conseguirmos combinar nossa identidade com ciência, tecnologia e sustentabilidade, não precisaremos apenas acompanhar o futuro da perfumaria, mas imprimir nele a verdadeira brasilidade, de um país onde a criatividade, ancestralidade e preservação projetam o futuro perfumístico, sem perder as raízes que narram a nossa terra.
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